Entrevista com Marisa Moura

por Vivaldo Lima Trindade, Verbo 21 Cultura e Literatura

(reprodução permitida)

MARISA MOURA é a simpatia em pessoa. Pós-graduada em Literatura Brasileira como Ferramenta para Programas de Comunicação Institucional e Marketing Cultural pela USP, é ela quem dirige A PÁGINA DA CULTURA, uma agência literária que trabalha há mais de 11 anos aproximando autores e editoras – trabalho feito sempre com muito critério, analisando cada caso, buscando interesses comuns, respeitando as diferenças profissionais e, também, zelando pela qualidade das relações.

No site da agência há diversas e importantes informações para escritores neófitos e estabelecidos entenderem melhor o complexo mercado editorial brasileiro. E você não precisa fazer parte do cast da Página para solicitar um parecer especializado sobre seu livro (que poderá ajudar MUITO). Confira o que essa menina tem a dizer!

Vivaldo Lima Trindade – Há quanto tempo você atua no Mercado Literário? Como surgiu a Página da Cultura?

Marisa Moura – Já tenho onze anos de Página da Cultura. Vale ressaltar que, nos primeiros anos, atuávamos mais com cultura – especificamente a área de marketing cultural – do que como agência literária.
Esse desejo singelo que tive, de abrir uma empresa preocupada com a literatura brasileira e com projetos especialmente voltados à cultura, foi o resultado da pesquisa que realizei para minha dissertação de Mestrado e que intitulei de “A parceria empresa-literatura: a experiência brasileira”.
Quanto ao nome da empresa, sua criação atendeu à nossa necessidade de sermos, ao mesmo tempo, “página de livro” e “página de cultura”.

VLT - Como se dá seu processo de seleção dos autores? Prefere trabalhar com gente nova ou conhecida?

MM – É preciso esclarecer que um agente literário não trabalha nem só a obra nem só o autor. Aliás, trata-se de uma parceria que eu gosto de chamar de “união literária”. A proposta da Página da Cultura sempre foi a de lançar talentos literários. Todavia, o produto de cultura, incluindo-se o livro, tem, historicamente, suas peculiaridades, principalmente no que se refere aos diferentes momentos pelos quais ele necessariamente deve passar, incluindo a fase de reconhecimento e consumo, pelo público e pelos críticos. Então, apesar de sermos influenciados, em primeiro lugar, pela qualidade da obra literária, e de esse ser nosso primeiro interesse em relação a qualquer autor, sempre avaliamos detalhadamente as possibilidades reais de desenvolvermos uma relação produtiva e de confiança entre o agente e o autor. Ou seja, uma parceria que acrescente elementos positivos à relação profissional dos dois.

Atualmente, estamos reconsiderando a representação de escritores inéditos que não tenham o hábito “quase compulsivo” de escrever sempre. Não nos interessam os escritores sazonais, pois acreditamos que a escrita só pode ser aprimorada com muita leitura e muito exercício.

É preciso dizer, no entanto, que nenhuma agência literária negaria a representação a um autor conhecido ou com um público leitor fiel. Da mesma forma que é preciso deixar claro que, no dia-a-dia de trabalho da Página da Cultura, tanto o autor iniciante como o reconhecido geram a mesma quantidade de ações e preocupações, e sempre com a mesma qualidade. O tempo que o agente investe para convencer os editores a apostarem no novo, ele também usa para administrar as relações editoriais de obras publicadas e de outros trabalhos paralelos aos livros e aos diferentes autores.

O raciocínio acima também serve para referendar um dos pilares da minha atuação profissional: o de não concordar com o fato de que uma empresa do setor cultural eleja suas preferências movida exclusivamente por opções financeiras. Minha primeira motivação será sempre a cultura.

VLT – É possível avaliar o atual momento da produção literária nacional sem submetê-la exclusivamente ao mercado? Quantos são os originais que chegam até a Página?

MM – A Página da Cultura entende que os instrumentos de avaliação da obra literária chegam sempre após a sua produção. Nenhum crítico se antecipa ao seu tempo. Quanto às decisões de publicação por parte das editoras, estas seguem inúmeras variáveis e não cabe aqui relacioná-las.

Contudo, observando-se a imprensa, os eventos literários e as feiras de livros, percebo que a literatura nacional tem mais destaque, mas carece ainda de muito mais. De muito mais do que já conquistou.

A Página da Cultura tem investido na idéia de esclarecer os escritores sobre todos os vetores que influenciam na publicação de uma obra – o que também é, em minha opinião, papel de um agente literário. Já nos primeiros contatos pedimos uma visita ao nosso site, onde procuramos disponibilizar o máximo de explicações. E outro ponto no qual insistimos bastante é o de o autor nunca nos enviar seu trabalho sem agendar a data em que o receberemos.

Claro que toda essa programação só tem a preocupação essencial de atender à grande quantidade de solicitações que temos, quase sempre cartas e e-mails nos quais o autor fala de si mesmo e de sua obra, e não necessariamente originais. Em média, são cerca de 100 contatos todos os dias.

VLT – Qual a principal qualidade que você enxerga num bom escritor para se firmar na carreira?

MM – Não falarei do que vejo todos os dias, mas do que considero como os pontos ideais a serem seguidos por um autor:

1. Que tenha lido os clássicos da literatura brasileira;

2. E também os clássicos da literatura mundial;

3. Se for contista, que tenha lido o suficiente para saber se produz algo diferenciado ou não. E o mesmo vale para os autores de outros gêneros;

4. Ele também deve acompanhar os lançamentos no gênero literário que escolheu;

5. Precisa dominar o instrumental de seu ofício, ou seja: ortografia, sintaxe, construção de enredos e personagens, passando por todos os componentes de um estilo próprio, como, por exemplo, o uso das figuras de linguagem;

6. Que ele desenvolva, como Flaubert, o hábito de ler em voz alta o seu próprio texto, até que a sonoridade seja agradável, tenha eufonia;

7. Que ele seja pai – e não padrasto – da obra que criou. Ou seja, tenha prazer de falar sobre ela com a imprensa, professores, alunos e leitores em geral;

8. Ele deve também se emocionar com o que escreve: chorar, rir, até mesmo ficar irado…;

9. É importante que ele consiga se distanciar da obra a ponto de perceber o que ela verdadeiramente pede em cada linha;

10. Por fim, não pode nunca esquecer que a ansiedade não gera nem uma boa obra nem uma boa publicação.

VLT – Acredita que as editoras brasileiras ainda estão abertas aos autores que não possuem agentes literários?

MM – São tão poucas as agências literárias trabalhando para os escritores brasileiros – e mesmo em termos mundiais, talvez exista perto de uma dúzia – que, se os editores não aceitarem escritores brasileiros sem agentes literários, a oferta ficará muito menor do que a procura.

Mas há uma prática já consolidada nas editoras: não se perde tempo com textos mal-acabados. As primeiras páginas são decisivas para que o texto siga às mãos de um parecerista (um profissional contratado pela editora para escrever um relatório a favor ou contra a publicação da obra).
Assim, erros de ortografia, nem pensar em cometê-los! Erros, enfim, de gramática em geral são considerados graves.

Algumas dicas: ajuda muito mandar o original com a seguinte ordem: a) Capa: título, nome do autor, endereço, telefones e e-mail; b) biografia de quatro parágrafos com cinco linhas cada, no máximo; c) resumo da obra, sem contar o final da história e d) a obra em si. Outro dado importante é saber escolher a editora, pois não se pode mandar um Harry Potter para Editora Atlas, por exemplo, ou o último título de Marketing do Kotler para a Companhia das Letras… Nesse sentido, se o escritor for um bom leitor, ele saberá colher nas livrarias outras dicas importantes.

VLT – Quais os conselhos mais rotineiros para os escritores estreantes?

MM – Não conheço nenhuma fórmula química que alivie a tensão desse rito de passagem que leva o autor estreante a se consolidar ou tornar-se consagrado. Mas vale lembrar que a Lei de Direito Autoral, aprovada em 1998, oferece muitas vantagens ao escritor e ele deve consultá-la no site da Fundação Biblioteca Nacional. Um outro recurso que o escritor estreante pode utilizar é divulgar sua obra, por exemplo, entre professores de literatura brasileira nas universidades.

Como a Página da Cultura já lançou alguns nomes no mercado, como Romilda Raeder e Eduardo Garrafa, entre outros, confesso que já passamos por períodos durante os quais conseguimos ficar mais tensos do que os próprios autores.

VLT – Editores como José Olympio e Ênio Silveira estão fora de moda? Qual o perfil do editor brasileiro?

MM – As duas perguntas reúnem momentos históricos do mercado editorial brasileiro completamente diferentes.

Entre conversas com colegas do mercado cultural e editorial percebo que, até a década de 70, o Brasil tinha uma “comunidade” cultural coesa, o que facilitava os contatos entre autores, editores e intelectuais em geral. Mas agora, em 2005, a realidade mudou completamente, tornou-se muito mais complexa. E um exemplo dessa complexidade pode ser conferido, por exemplo, no site da Frankfurt Book Fair, especificamente na classificação proposta para ficção: adventure, movie or television Tie in, Gay&Lesbian, historical, horror, humour, literary, mistery&detective, novel, poetry, religious, anthologies, romance, science fiction, short stories, thriller, war, woman, classics, commercial, drama, erotica, family saga, fantasy, fair tales.

Ou seja, a gama de opções para linhas editoriais é muito maior do que no passado, o que reflete a solução administrativa que o mercado editorial oferece à complexidade da cultura. Agora, vamos imaginar, em termos empresariais, como a necessidade de atendimento diferenciado para cada uma dessas áreas, e também de um necessário retorno que seja ao mesmo tempo de marketing, editorial e comercial, obrigou a separação das figuras, antes unidas, do publisher e do editor… Hoje, existe nas editoras um profissional preocupado com a visão total do catálogo – publisher, enquanto outro (editor) – ou outros – se preocupa com o conteúdo, ou com as chamadas linhas editoriais.

Assim, voltando à pergunta, a relação direta e aparentemente simples da época de Ênio Silveira e de José Olympio com a época que estamos vivendo tornou-se praticamente impossível.

VLT – Você sente que a Literatura Brasileira carece de escritores que saibam contar boas histórias, assim como fizeram Jorge Amado e Érico Veríssimo no passado? Por que nossa obsessão com a forma?

MM – Nas boas histórias, para usar os termos da pergunta, forma e narrativa jamais estão separadas. E dois bons exemplos de como superar essa dicotomia são, em minha particular opinião, Guimarães Rosa e Umberto Eco.

A incomodidade que existe entre escolher uma ou outra (forma versus narrativa) reside no fato de não se privilegiar o leitor – aquele simples consumidor de histórias selecionadas no ato, aparentemente displicente, de folhear as páginas de um livro em uma livraria.

Se fizermos a opção pela forma, transformamos a linguagem em grande personagem. No elemento essencial da obra. A palavra, portanto, ganha a possibilidade de ser o elemento mais importante, o que também fascina certos leitores.

De outra maneira, caso o enredo seja o elemento mais importante, o autor corre o risco de gerar um produto de consumo fácil e descartável, que não perdure na história do gênero literário escolhido.

Assim, existe um pêndulo que aponta, sincronicamente, para os dois lados, e que deve ser cuidadosamente pensado pelo autor.
Na verdade, acredito que a obra sabe o que quer do autor, e sugiro aos autores que ouçam os pedidos de sua criação.

VLT – E a poesia? Julga possível um autor do status de um Drummond ou de um Manuel Bandeira nos tempos de hoje?

MM – A resposta mais simples seria: Por que não? A vida continua sensibilizando todos os poetas, exigindo deles que exprimam suas reações por meio dos versos. É comum, inclusive, aparecer na imprensa poetas “esquecidos”, mas revigorados por novas leituras.

Outra resposta possível, agora bem-humorada, seria: Claro que sim!, pois diante da quantidade de poetas que afloram na colméia brasileira todos os dias, é impossível que não surja pelo menos uma abelha rainha.

VLT – Várias vezes ouvimos falar de um novo boom de contos depois dos anos setenta? Foi tudo fogo de palha? O que você acha das antologias temáticas?

MM – Nós continuaremos sempre a ouvir falar de “boom” de contos, apenas pelo fato de este ser um gênero literário vivo. Aliás, vivíssimo! E jamais devemos esquecer que o conto exige do autor uma precisão técnica, em termos de narrativa (forma versus conteúdo), maior que a novela e o romance.
Quanto à expressão “fogo de palha”, considero-a muito forte para designar os contos que os críticos, a mídia e os prêmios literários não permitem que permaneçam na memória literária dos leitores.

Sobre as antologias, conformam um fenômeno complexo que não pode ser analisado na base do “achismo”, pois elas atendem a várias necessidades diferentes: históricas, mercadológicos e até mesmo educacionais.


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O que faz um romance ou livro "publicável"?

Há muitas coisas a serem consideradas, mas as mais importantes são as seguintes:

  • A "premissa" é boa?
  • Será que ela segue uma lógica, uma linha de desenvolvimento ("arco da história/ arco dos personagens") que seja interessante e crie suspense?
  • Os personagens principais estão bem desenvolvidos?
  • Poderia o leitor se identificar plenamente com o personagem principal? As personagens secundárias foram bem expostas e são interessantes?
  • O diálogo "soa" real? Faz uma boa pontuação com a descrição e a ação? Está inserido no momento adequado, realçando alguma descrição ou ação? Está sendo utilizado para salientar alguma característica ou emoção dos personagens e dar movimento à cena?
  • As descrições são vívidas, não muito longas e bem marcadas com o diálogo? A trama tem ritmo e ação?
  • A perspectiva narrativa, a estruturação, o uso de palavras e a sintaxe tensa (apresentação, desenvolvimento e resolução do conflito) refletem um escritor de capacidade? (ou um autor suficientemente bom para que se tenha um texto viável após editado)
  • A trama mantém o leitor interessado?
  • A história cresce até um desfecho interessante?

Quer saber mais? Envie-me um e-mail com as suas perguntas: james.mcsill@gmail.com

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 Irresistivelmente arrebatador

Sem dúvida, escrever é muito prazeroso. Mas quando há uma proposta em jogo, é preciso entender as suas regras. 
Você conhece as técnicas para escrever um conto irresistivelmente arrebatador?
Vou lhe dar algumas pequenas dicas que garantem o sucesso de qualquer conto.

 

      Artigo de James McSill, tradução de Kyanja Lee

As 8 regras básicas do conto

Um bom conto deve:

1. Ter um único fio narrativo.

Como o espaço de um conto é limitado – talvez pouco mais do que 1000 a 2000 palavras – não há espaço para explorar as histórias de vários personagens ou mostrar como os personagens principais reagem em diferentes situações.
Estabeleça uma linha de história e não se desvie da mesma. 
Alguns exemplos:

a. Helena planeja uma vingança contra a mulher que roubou o seu emprego.

b. Camila decide se fica ou não com a carteira que encontrou na rua.

c. Ricardo enfrenta o seu arqui-rival numa competição de vida ou morte de motocicleta.

Se você começar a ampliar a trama de sua história – talvez focalizando as vidas de todos os competidores da corrida de moto de Ricardo – você está escrevendo uma novela ou um romance. Qualquer conto com mais de 4000 palavras é difícil de vender. Qualquer texto com mais de 6000 palavras  é, em difinitivo, uma novela.

2. Um espaço temporal curto.


Um conto é como uma foto – um instante congelado no tempo.
- Faz um check-up de como seu personagem lida com um fato, em um período difícil ou traumático de sua vida. (Não é para lidar com a história de sua vida, fazer o estudo de um personagem ou escrever a crônica de suas várias aventuras.)
- Os melhores contos têm um foco restrito – uma linha de história cobrindo não mais do que alguns dias. As histórias mais envolventes cobrem eventos que atingem seu herói em poucas horas cruciais.
Um único estado de espírito, ritmo e estilo.
- Um conto deve produzir o mesmo sentimento ao longo da narrativa. Não deve iniciar com um tom emocional recheado de sofrimento, para acabar descambando para um de comédia explícita.
- Ele não deve acelerar ou diminuir o seu ritmo de forma oscilante. Ou passar de um estilo seco, com sentenças cortantes e um vocabulário simples para uma prosa ininterrupta, langorosa, destilando expressões barrocas e imagens hiperbólicas.
- No momento em que você muda a direção ou o tom que está sendo adotado, você provoca um tranco em seu leitor.

3. Descrições breves.

- Um conto não é o espaço para exibir suas habilidades descritivas. Descrições extensas matam o ritmo e desviam a trama da atenção do leitor.
- Você deve sempre ter como objetivo alcançar o máximo efeito com o mínimo de palavras. Você pode preencher uma página descrevendo cada aspecto da aparência de uma mulher de idade, mas a única informação útil que você terá dado ao leitor é que a mulher é idosa. Ou seja, você poderia atingir o mesmo efeito em seis palavras. Ex: Edite tem ondas prateadas nos cabelos.
- Forneça apenas as informações secundárias que forem relevantes à trama.
- Se a estória for sobre as lutas e as vitórias de John com o fim de seu casamento, o fato de ele ter feito seis tentativas para obter suas medalhas de natação nos 100 metros ou ser alérgico a amendoim não é importante.
- O truque é manter um bom balanço e fornecer informações concisas e fatos relevantes suficientes sobre um personagem, de maneira que o leitor consiga visualizá-lo.

4. O mínimo de personagens.

- Quatro personagens ou menos. Não há tempo nem espaço em um conto para encontrar um batalhão de novos rostos, e memorizar cada personagem e seu grau de parentesco ou envolvimento com outros.
- Pense em como é difícil você se lembrar de todos os nomes das pessoas a quem é apresentado em uma festa. Dois é o número ideal de personagens para um breve conto, pois permite que você use diálogos de como eles conversam e reagem. Três é excelente para contos explorando o eterno triângulo amoroso, mas quatro é, de fato, o limite.
 
5. Sem enredos paralelos, moral camuflada ou subtemas.


- Simplifique. Conte a estória da forma mais direta possível e não tente ser tão brilhante ou intelectual.
- O enredo é de suprema importância. Assim, não permita que nada interfira na forma ligeira e uniforme que se recomenda ao narrar a história. Esse desvio poderá acontecer se sua escrita falar em vários níveis e revelar toda a sorte de verdades ao leitor. Se isso acontecer, ótimo. Mas não se esforce para isso, em definitivo. Deixe que aconteça de modo espontâneo.
- Não faça de seu texto uma lição de moral. 
- Não use simbolismos.
- Não estabeleça a noção de que tudo tenha que ser significativo e profundo, pois grandes são as chances de que você termine com uma história cheia de significados entediantes.

6. Nada de criar um cenário ultra elaborado e redundante.

- As razões mais comuns que dispersam o leitor em alguns contos é que os escritores gastam as preciosas  linhas iniciais montando o cenário. Ao invés de narrar a história, prendem-se a descrições desnecessárias sobre o tempo, a cidade em que a história ocorre, ou o estado de humor do personagem principal, sua aparência ou seu histórico familiar.
- Vá direto à trama em sua primeira frase.
- Saiba também estabelecer o final da história. Termine-a de imediato assim que o conflito de seu personagem for resolvido. Não se deixe arrastar sem rumo por vários parágrafos extras, até se esgotar num sopro.
- Assim como uma boa piada, um conto tem que ter um final arrebatador.

7. Diálogos tensos e cortantes.


- Não há como justificar um título atraente e arrebatar a atenção de seu leitor se toda vez que seu personagem principal fala, dá vontade de bocejar.
- Diálogos devem ter um ritmo veloz, excitante e dramático. São uma ótima maneira de injetar emoção em uma história. Ajudam a criar estados de humor e tensão.
- Crie diálogos concisos. Que eles sejam apenas um flash (recorte sonoro) da realidade, e sirvam apenas para dar vida ou caracterizar de forma peculiar os personagens, e não prosaicos bate-papos.
-  Um texto sem diálogos fica menos tenso.

8. O menor número de pontos de vista quanto possível.

- Um bom conto deve relatar o que acontece ao seu personagem principal quando ele enfrenta uma certa quantidade de situações. E nós, leitores,  devemos enxergar esses eventos através de seus olhos – e somente através deles. Se começarmos a ver a ação pela perspectiva de outro personagem, o texto não está sendo eficaz.
- Além de ser muito confuso, isso distancia o leitor do herói – quebrando o vínculo de empatia. Quando uma história funciona bem, tem apenas um único ponto de vista, através do qual o leitor imagina a si próprio como herói.
- Troque de ponto de vista quando isso for vital para o enredo. Não mais do que uma vez, no conto.

 

Quer saber mais? Envie-me um e-mail com as suas perguntas: james.mcsill@gmail.com

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 Não conte: mostre!

"Não nos conte que a velha chorou.”

Traga-a e deixe-a chorar." Samuel Clemens 

 

 Artigo traduzido por Kyanja Lee

Todos nós já ouvimos a frase: “não conte: mostre”, mas quantos talvez não saibam o que isso significa ou como fazê-lo. É uma daquelas coisas vagas, que parece impossível de apreender, e mais ainda de transpor para o papel. Mas, anime-se, porque há alguns pequenos truques do ofício que podemos lhe passar. 

Antes de mais nada, você precisa saber a diferença entre CONTAR de MOSTRAR.

 

Contar (tell) é abstrato, passivo e envolve menos o leitor.. Diminui o seu ritmo, tira a sua ação e retira o seu leitor de sua estória.

 

Mostrar (show), entretanto, é ativo e concreto, criando imagens mentais que trazem  sua estória – e os seus personagens – à vida. Quando você se deparar com alguma narrativa que é vívida, evocativa e forte, há grandes chances de estarem presentes muitas de técnicas de showing (mostrar) nela.  Mostrar é interativo e encoraja o leitor a participar da experiência da leitura tirando suas próprias conclusões

 

vários sinais para você se guiar que lhe indicarão se você está CONTANDO:

 

1. Aqueles desagradáveis advérbios: basicamente, qualquer advérbio terminado em - ente. Por exemplo: 

 

ANTES: "Você é um tremendo idiota”, ele falou ferozmente.  

Primeiro, você nunca deveria modificar “falou”com um advérbio. Segundo, procure reduzir o uso de advérbios ao mínimo essencial. Não que sejam palavras nocivas, mas devem ser evitadas ao máximo. É tão melhor MOSTRAR que o seu personagem estava bravo:

 

DEPOIS: "Você é um tremendo idiota” – Paulo bateu a agenda telefônica arremessando-a no sofá. As páginas se agitaram abertas, os nomes inscritos pareciam expostos e vulneráveis contra o rígido couro preto.. Paulo voltou-se em seus passos, movendo-se tão rápido que sua cadeira derrapou contra o chão e amassou o papel de parede novo. 

 

Percebeu os detalhes no segundo exemplo? Em nenhum momento eu usei a palavra “ferozmente” ou mesmo “feroz”. Eu não precisei dizer que ele estava alucinado. É muito claro isso. Na realidade, eu nem precisei dizer em palavras que ele falou. Mostrando com suas ações logo após seu diálogo, você sabe que é o personagem quem está falando.

 

2. Não “Ser/Estar”: Evite essas formas verbais – sou, é, era, estava sendo, teria sido, poderia ter sido etc. São verbos que, além de transmitir um sentido de tempo verbal passivo na maioria das vezes, também tendem a retirar o seu leitor da ação. Novamente, não são palavras nocivas que devem ser evitadas a todo custo (como vê, eu mesmo acabei de usar esse verbo), mas se quiser trabalhar sua escrita para torná-la mais vigorosa sem a palavra “era” ou qualquer forma de uso, você mostrará mais do que contando.

 

ANTES: O quarto era perfeito. Ela o viu e foi imediatamente transportada à sua infância porque todos os elementos a lembravam dessa fase.

 

DEPOIS: Ela escancarou a larga porta de carvalho e foi transportada a um passado de remotos vinte anos. O quarto ela se recordava até nos mínimos detalhes. Paredes listradas de pink com frisos brancos. Um grosso carpete branco, duas cadeiras de plush marrom aveludadas ladeando uma silenciosa lareira. Um enorme dossel sobre a cama, drapeado com um transparente véu branco  Linda pressionou a mão sobre a boca. Quais eram as suas chances? Outro quarto, exatamente igual àquele que ela tivera, anos atrás, antes de crescer e perder o único espaço que lhe havia trazido felicidade.

 

Eu não usei a palavra “era” de forma alguma. Eu me concedi uma pequena licença poética com as regras gramaticais, mas você também pode fazê-lo. Você é o escritor. Você pode “ver” o quarto agora. Você pode senti-lo, também, espero. Você pode ver os detalhes que levam a personagem de volta ao passado, mais do que simplesmente contando que isso ocorre à mesma. Isso transmite algo concreto ao leitor para visualizar e se conectar. 

 

3. Começando com Conforme/como/à medida que ou –indo/-endo: novamente, como nos exemplos anteriores, essa não é uma regra de vida ou morte. Entretanto, em geral, você deve evitar começar uma sentença com a construção “Conforme” ou “indo/endo” "Conforme ela caminhou” ou “Batendo na porta” são inícios razoáveis, mas apenas razoáveis. São frases que, novamente,  contam, não mostram.

 

ANTES: Batendo na porta, Elaine se fez notar pelas pessoas dentro da casa. 

 

DEPOIS: Elaine formou um punho esticado com sua mão direita e esmurrou no carvalho jamais esquecido. Tinham que ouvi-la, ou ela quebraria sua mão deixando eles saberem que ela havia chegado. 

Você constatou a concisa imagem no segundo exemplo? O início mais vigoroso? Remover a construção –indo/-endo realmente ajuda. O mesmo princípio se aplica às construções conforme/como/à medida que”. 

 

Dica Útil: Analise os  filmes de cinema. Nos filmes, eles não podem lhe CONTAR nada. Tudo é visual; portanto, exposto. Como você sabe que alguém está aborrecido, bravo, feliz, triste, frustrado etc? Assista a filmes e anote as expressões faciais, movimentos, ações, gestos etc. Use essas anotações para descrever seus próprios personagens quando estiver escrevendo. Não há forma melhor para aprender como MOSTRAR emoção ao invés de contá-la. 

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Como Identificar um Enredo Consistente (Segundo a visão de um editor):
 
Normalmente, para se identificar um enredo consistente, fazem-se as seguintes indagações, processo conhecido como 'line-up approach.

 

O enredo de qualquer romance deve responder às seguintes questões:
 
1.      Qual a situação central da sua estória/trama? (fábula/romance/narrativa)

2.      Quem é o personagem principal?

3.      O que o personagem central pretende alcançar ao chegar ao final da trama?

4.      Quem ou o que se opõe ao personagem principal para que ele alcance o que pretende?

5.      O que o oponente/antagonista/vilão faz para impedir o personagem central de atingir o que pretende?
 
• As perguntas 1 e 2 devem ser respondidas com uma afirmação.
• A pergunta 3 deve se respondida em duas partes: uma frase afirmativa (a) e uma questão (b) que se inicia na pergunta 3, abrangendo ainda as perguntas 4 e 5, cuja resposta FINAL tem que ser: SIM ou NÃO. (TALVEZ é uma gradação do contínuo sim/não).
 
Seguem alguns exemplos didáticos:
 
1) Maria da Silva enviou o seguinte manuscrito para ser avaliado:
 
Respostas ao questionário de seu manuscrito:
 
1.     Solitária, frustrada e farta de viver num lar onde é tratada como uma escrava pela própria filha,
2.     A viúva Eudinéia dos Anjos
3.     (a) pretende se casar com o viúvo Mário de Castro, velha paixão dos tempos de escola. (b) Eudinéia perderá essa última oportunidade se ser feliz por causa
4.     de sua filha egoísta e ciumenta
5.     que a acusa de imoralidade?
 
2) José da Silva enviou este outro manuscrito:
 
Respostas ao questionário de seu manuscrito:
 
1.     Cansado com o conformismo e a hipocrisia da alta sociedade carioca,  por causa da importante posição política que exerce na Petrobrás, e também detentor de uma razoável poupança no Bradesco que lhe garantirá uma aposentadoria modesta,
2.     Carlos Manuel
3.     (a) decide se aposentar dez anos antes, para auxiliar os favelados nos morros do Rio – o que sempre foi seu sonho secreto,  acalentado desde que se convertera para a Igreja Evangélica Recomeçar em Cristo. (b) Será que Carlos Manuel conseguirá realizar seu sonho sem maiores empecilhos, pois
4.      sua esposa Cacilda, de família rica, ambiciosa e descrente, se opõe a diminuir o nível de vida, arriscando seu status de uma das mais badaladas socialites cariocas
5.     e, finalmente, ameaça declarar o seu marido doente mental e incompetente?

 
Se o 'tight plot' se confirmar, eu, como editor, posso relevar alguma assimetria, cortar algumas cenas ou pedir que o autor reescreva cenas adicionais. Também como editor, lerei estas cenas buscando entender COMO o autor deu VOZ aos personagens e VOZ à trama.

Como a voz tem a ver com a linha editorial, posso pedir para, por exemplo, o autor redigir frases mais curtas, ou criar um texto mais erudito, ou usar menos obscenidades, ou ainda cortar a cena em que os viúvos fazem sexo sem proteção, etc.
 
Em resumo, a partir destas CINCO indagações posso perfeitamente inferir a qualidade PRÉ- Editoração de um texto.

Se o autor não souber responder a elas, já será a primeira indicação de que há problemas com o seu texto.


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